Análise Fundamentalista: Empresa M. Dias Branco S.A. (MDIA3) – 1° trimestre 2016

Mais uma análise fundamentalista do 1° trimestre de 2016 e chegamos a Empresa de alimentos M. Dias Branco. Ela atua no segmento de massas, biscoitos, torradas e outros produtos derivados do trigo. O cenário econômico desafiador também vem impactando os resultados da Companhia como estamos vendo com uma parte considerável das Empresas brasileiras. Entretanto, a Companhia precisa olhar para frente. Dito isso, vamos passar detalhadamente pelos resultados e combiná-los com as expectativas da direção. Antes de começarmos com os destaques reiteramos que este espaço tem como objetivo a discussão dos resultados e perspectivas e em hipótese alguma se tem a intenção de fazer qualquer indicação referente a compra, venda ou manutenção do ativo. Vamos aos destaques do trimestre:

Receita Líquida – R$ 1.153,8 bilhões com crescimento de 11,7% em relação ao 1T15 e queda de 3,8% em relação ao 4T15.

Volume de vendas – crescimento de 1,9% em relação ao 1T15 e queda de 9,7% a respeito do 4T15.

Market Share – 28,9% em massas e 29,3% em biscoitos no 1T16.

Lucro Líquido – R$ 94,6 milhões no 1° trimestre de 2016 com queda de 24,6% frente ao 1T15 e queda de 22,9% sobre o 4T15.

Ebitda ajustado – R$ 145,5 milhões representando uma queda de 15,2% a respeito do 1T15 e queda de 0,3% sobre o 4T15.

Margem Ebitda – 12,6% da receita líquida no 1T16 com queda de 4,0 pontos percentuais sobre o 1T15 e alta de 0,4 pontos percentuais em relação ao 4T15.

– Neste trimestre ocorreram gastos não recorrentes no montante de R$ 11,6 milhões enquanto no trimestre anterior foram gastos R$ 12,6 milhões.

Dívida Líquida – R$ 260,9 milhões com aumento de 287,7% em relação ao mesmo trimestre do anterior e uma queda sobre o 4T15 de 34,1%.

Dívida Líquida/Ebitda ajustado – 0,4 vezes (foi utilizado o Ebitda dos últimos 12 meses).

Vamos debater de que forma esses resultados foram alcançados e o que a Companhia espera olhando para frente. Em relação ao Market Share temos um resultado interessante. Vamos colocar aqui a evolução do mesmo para massas e biscoitos ano após ano para que nós tenhamos uma visão mais ampla:

2009: massas: 23,2% ; biscoitos: 21,3%

2010: massas: 23,3% ; biscoitos: 22,3%

2011: massas: 25,1% ; biscoitos: 25,4%

2012: massas: 25,7% ; biscoitos: 26,6%

2013: massas: 28,0% ; biscoitos: 28,0%

2014: massas: 28,9% ; biscoitos: 28,1%

2015: massas: 28,4% ; biscoitos: 27,9%

2016: massas: 29,3% ; biscoitos: 28,9%

Note que no primeiro trimestre de 2016 o Market Share tanto para massas quanto para biscoitos foram os maiores desde 2009. Isso nos leva a crer que a economia enfraquecida tenha atingido todos os participantes do setor em relação a uma evolução nas vendas. Isso aconteceu com a M. Dias Branco também mas pelo fato de ter uma boa estrutura financeira e um bom nível de verticalização de sua produção percebe-se que a Companhia ganhou fatia de mercado.

Organograma da Companhia apresentando as diferentes Empresas e Marcas que compõem o portfólio da M. Dias Branco.

A Empresa vem adotando algumas estratégias face ao momento atual de alta inflação, nível de emprego em queda e aumentos tributários. Essas estratégias visam além de mitigar os efeitos acima descritos também capturar possíveis oportunidades. Vamos a estas ações:

– Aumento de preços para adequar seus produtos à realidade da inflação de custos. Em média os preços subiram 9,5% em relação ao 1° trimestre de 2015 e 4,0% em relação ao 4° trimestre de 2015.

– Contínua expansão da atuação no mercado. As ações que a M. Dias Branco vem fazendo para crescer são o fortalecimento da área de exportação, desenvolvimento de novos produtos e a intensificação dos esforços relativos aos novos negócios (torradas, bolos, snacks e mistura para bolos).

– Eficiência de custos com a continuidade do processo de verticalização da Companhia, contribuindo para melhoria das margens. Atualmente, a verticalização de farinha de trigo já atingiu 93,1% das necessidades e a de gorduras chegou a 94,5% das necessidades.

– Eficiência operacional a partir do redesenho de processos e enxugamento da estrutura. No final do 1T16 o quadro de funcionários estava 5,1% menor do que no final do 4T15, trazendo uma economia de custos de R$ 11,6 milhões.

– Expansão das plantas com a continuidade dos projetos de expansão da capacidade produtiva como, por exemplo, a construção de um moinho de trigo no Sul e uma nova planta em Minas Gerais.

A unidade de Bento Gonçalves/RS recebeu investimentos para a sua expansão em 2015.
Projeto do novo moinho de trigo na região de Bento Gonçalves realizado pelo escritório de arquitetura e urbanismo Sérgio Rodrigues.

Na teleconferência de resultados da M. Dias Branco foi colocado um ponto interessante sobre os volumes de vendas. Nos 3 primeiros meses do ano vimos crescimento mês a mês nos volumes vendidos em todas as linhas de produtos da Empresa. Normalmente, no release de resultados da Companhia são dados apenas os números do trimestre como um todo mas no 1T16 essas informações foram abertas. Vamos colocar abaixo como se deu esta evolução:

Biscoitos e massas:

Jan – 55,1 mil ton.
Fev – 65,7 mil ton.
Mar  71,1 mil ton.

Farinha e farelo de trigo:

Jan – 61,0 mil ton.
Fev – 62,2 mil ton.
Mar  64,4 mil ton.

Margarinas e gorduras:

Jan – 5,5 mil ton.
Fev – 5,8 mil ton.
Mar  6,4 mil ton.

Diante dos resultados acima foi questionado se para os próximos períodos há uma expectativa de que essa evolução continue. A direção deixou claro que não soltam nenhum tipo de guidance mas comentaram que até o final de abril esta tendência permanecia.

Os investimentos no 1° trimestre de 2016 totalizaram R$ 63,2 milhões sendo destinados para a ampliação da capacidade produtiva, já que a Companhia se diz querer estar pronta para um possível aumento nos volumes de vendas olhando para frente. O fluxo de caixa operacional totalizou no período R$ 169,7 milhões vs R$ 210,5 milhões no 1T15 e a posição atual de caixa é de R$ 430,9 milhões. Em relação aos novos lançamentos de biscoitos houve a entrada de 51 produtos nos últimos 24 meses e a Empresa gerou uma Receita Bruta de R$ 10,9 milhões com os mesmos.

Vamos falar agora sobre os custos dos produtos vendidos (CPV) que no 1° trimestre de 2016 apresentou um aumento de 4,8 pontos percentuais sobre a receita líquida passando de 66,2% para 71%. Os principais motivos para a variação no CPV serão descritos abaixo:

– Aumento de 20,6% no custo médio do trigo justificado pela desvalorização do real frente ao dólar que na média dos 12 meses fechando no 1° trimestre de 2016 apresentou alta de 36%.

*para verificar a cotação do trigo acesse:

http://www.noticiasagricolas.com.br/cotacoes/trigo/trigo-iea

– Diminuição dos custos de farinhas e gordura em decorrência da continuidade do processo de verticalização. No 1° trimestre de 2015 21,2% da farinha consumida pela Companhia foi comprada junto a terceiros. Enquanto no 1T16 este número caiu para 6,9%. Já a gordura comprada junto a terceiros caiu de 8,2% no 1T15 para 5,5% no 1T16.

– Crescimento do custo médio de óleo vegetal consumida pela Companhia de 17,5%.

– Maiores gastos com mão-de-obra impactado pelo aumento de encargos de INSS referente a mão-de-obra alocada à atividade industrial, em função do término do efeito de desoneração da folha de pagamento em novembro de 2015.

As despesas operacionais como percentual da Receita Líquida passaram de 23,9% no 1T15 para 24,4% no 1T16 correspondendo a R$ 246,8 milhões no 1T15 e R$ 281,9 milhões no 1T16. Isso representa um aumento de 14,2% neste trimestre em relação ao 1° trimestre de 2015 e -1,3% em relação ao 4° trimestre de 2015. Está queda em relação ao último trimestre ocorreu mesmo com o impacto de aumentos salariais na ordem de 8%. Além disso, pode-se perceber o efeito cheio da desoneração e o impacto da redução do quadro de funcionários que teve mais relevância a partir deste ano. A companhia informou que no 1T16 foram gastos de forma não recorrente o montante de R$ 11,6 milhões decorrente do processo de reestruturação. No 4T15 foram gastos de forma não recorrente R$ 12,6 milhões fruto dos gastos com o fechamento de uma das plantas e a recomposição de provisões devido ao término da desoneração da folha de pagamento. O investidor deve acompanhar de perto como as despesas operacionais se comportarão daqui para frente. A Empresa parece estar com o objetivo de reduzir custos mas é necessário que aliado a isso as operações sejam sustentáveis. Lembrando novamente que ano contra ano as despesas operacionais subiram 14,2% enquanto a receita subiu 11,7%.

Vista aérea da unidade de Salvador/BA, na Baía do Aratu. O parque industrial contempla moinho de trigo e fábricas de biscoitos, massas e misturas para bolos.

Vamos a partir de agora apresentar alguns questionamentos sobre a visão de futuro da Companhia, de que forma os resultados do trimestre atual foram alcançados e eventos que aconteceram dentro da Empresa recentemente. Em setembro de 2015 entrou em operação o novo moinho na cidade de Eusébio – CE. Esta iniciativa visa a continuidade do processo de verticalização que a M. Dias Branco vem implementando, principalmente no nordeste e sudeste. A Empresa segue com a construção de um novo moinho de trigo em Bento Gonçalves no Rio Grande do Sul que deverá entrar em operação em 2017. Com esse moinho em atividade a expectativa é que seja concluída 100% de verticalização de farinha de trigo na Companhia. Falando um pouco sobre o market share no segmento de biscoitos a M. Dias Branco é líder de mercado em todas as regiões do país exceto no centro oeste que é a 2ª colocada. Já em massas a Empresa só não tem a liderança no sul do país e no centro oeste onde é 2ª colocada.

Segundo a Empresa, se desconsiderarmos os gastos não recorrentes de reestruturação no valor de R$ 11,6 milhões ocorridos no 1° trimestre de 2016 (sobretudo nos meses de janeiro e fevereiro) as margens bruta e ebitda passariam de 33,4% para 35,7% e de 12,6% para 14,2% respectivamente. Diante disso, foi perguntado que dado essa recuperação vista no trimestre da margem ebitda aliado a estabilização do câmbio e um menor preço do trigo em reais como a M. Dias Brancos veria a necessidade de um novo aumento de preços. A Companhia se posicionou dizendo que já fizeram um repasse de preços no 1T16 de 6% e em massas e biscoitos esse reajuste foi um pouco maior. Em abril de 2016 eles disseram que já implementaram um novo aumento de preços de aproximadamente 8% na média. A entrada desta nova mudança ocorreu no final de abril e visa recuperação de margens. A Companhia parece confiar que diante dos aumentos dos volumes mesmo em um cenários de aumento de preços as margens possam voltar a evoluir. Vamos acompanhar se realmente as expectativas da Companhia estão alinhadas com a realidade do momento atual.

Pode-se notar que a utilização da capacidade produtiva vem caindo ao longo dos últimos trimestres. Com isso, foi questionado sobre quais as expectativas em relação a utilização da capacidade produtiva olhando para frente. A direção informou que a redução da utilização da capacidade produtiva não refere-se somente a queda dos volumes mas sim ao aumento dos investimentos com a entrada de dois novos moinhos e ao início de operação de novas linhas. Mas a expectativa é que se houver uma melhora mais consistente da economia a Companhia já está preparada. Além disso, comunicaram que não há expectativa para fechamento de linhas ou fábricas.

Talvez este aumento mês a mês nos volumes possa ter surpreendido um pouco ainda mais diante do momento atual em que a economia brasileira se encontra. Com isso, foi perguntado como poderíamos interpretar essa alta vista nos volumes. A M. Dias Branco disse que a evolução vista neste trimestre só pôde ser vista na Companhia em 2012, ou seja, aumentos de volumes consistentes em relação ao mês anterior. Na realidade esta informação aberta de cada mês não é normalmente divulgada pela Empresa mas por ser uma situação especifica a Companhia resolveu destacar. Pois houve esse crescimento sistemático mesmo em um quadro de aumento de preços e na situação econômica em que estamos vivendo. Foi reiterado que este tipo de informação não será divulgada novamente nas próximas divulgações de resultados.

O assunto relativo ao aumento dos volumes foi recorrente na teleconferência de resultados. Indagou-se de que forma a Companhia atribuiria o aumento nos volumes. Seria uma mudança na demanda? E como eles estão vendo o comportamento dos volumes olhando para frente. Os diretores colocaram que possivelmente estamos perto do “fundo do poço” no setor de alimentos. E que em relação aos próximos trimestres a M. Dias Branco não coloca nenhum tipo de guidance mas disseram que não estão vendo redução neste ritmo de crescimento iniciado no início do ano.

Foi questionado como está a dinâmica concorrencial em relação ao aumento de preços e perguntado se as outras Empresas do setor também estão fazendo. Foi dito que a inflação de custos impacta a todos do segmento e que há um movimento de repasse de preços geral. Cada Companhia em seu ritmo. Por fim, a M. Dias Branco destacou que um dos fatores que objetivam auxiliar na evolução dos volumes vendidos foi a redesenho da estruturação da força de vendas. Antes ela era dividida por produtos e agora está segmentada por região. A equipe neste momento pode vender todas as marcas, porém ainda é cedo para dizer que esta mudança está trazendo resultados.

2 Comentários


  1. Excelente explanação sobre os resultados da empresa. Ela perdeu um pouco de produtividade, mas muito influenciado pelo efeito não-recorrente mesmo. Um fato que achei interessante, tanto no caso da M Dias, quanto na Grendene, foi que ambas as empresas adotaram a estratégia de repasse de preços para recuperar as margens! Muitos poderiam pensar que seria um contrassenso o aumento de preços em um ambiente de baixo consumo, porém, levando-se em conta que essas empresas possuem marcas dominantes, ressalvado seu diferente setor, percebemos que foi uma estratégia importante para que a queda dos lucros não fosse maior. Parabéns pelo trabalho de vocês!

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  2. A M. Dias Branco teve um 2015 de perda de produtividade, onde os efeitos da verticalização ainda eram tímidos. Realmente a Empresa fez vários aumentos de preço para tentar diluir mais os efeitos dos aumentos de custos mas, sobretudo em 2015, apresentou queda nos volumes de vendas. Agora o cenário me parece um pouco diferente. Na teleconferência de resultados e excepcionalmente neste trimestre os gestores abriram os números acerca dos volumes vendidos por mês e houve crescimento mês a mês tanto em massas como também em biscoitos, salvo engano. Então, o mercado em geral ficou mais otimista com a M. Dias. E achei até que eles ganharam produtividade no trimestre em relação ao ano passado. Entretanto, ainda é cedo para falar que e Empresa voltará a apresentar crescimento. Já na Grendene pode-se notar pelo ebitda que perdeu vendas. Perdeu um pouco de market share. Mas é aquilo também, a Empresa é sempre muito clara em seus objetivos e o cenário que se desenha. Para a Grendene acho que a "retomada" pode demorar um pouco mais. Para quem tem R$ 1,0 bi de caixa a situação fica mais confortável. Teremos a oportunidade de avaliar como o mercado consumidor reagirá diante dos aumentos de preços que ambas praticaram. Poderemos ver o poder das marcas neste momento mais desafiador.

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