Fluxo de Caixa: Como Fazer uma Avaliação Completa e Melhorar a sua Análise de Empresas

Uma companhia seja de capital aberto ou capital fechado têm dinâmicas internas que envolvem pessoas e resultados. Quanto mais o time estiver entrosado melhores tendem a ser as performances.

Mas para o sócio, o que é uma boa performance?

Bom, é isso que tentaremos clarificar hoje. O que os investidores devem levar em consideração para avaliar se um case está sendo bem gerido e gerando valor para o acionista. As análises de resultados de uma companhia devem levar em conta uma série de itens. Só para citar alguns, temos o endividamento, a lucratividade, o histórico de margens, marcas fortes, lucros consistentes e por aí vai.

Hoje, entraremos mais a fundo na análise do fluxo caixa. O fluxo de caixa pode ser comparado as “artérias” por onde o dinheiro efetivamente circula dentro de corporação. O caixa de uma companhia pode ser visto como um escudo em determinados períodos e até ser utilizado como uma arma em outros.

O que estamos querendo dizer com isso?

Essa interpretação é interessante. Se pegarmos, por exemplo, os dois últimos anos, tivemos um mix de Selic em alta e consumo em queda. Nesse período uma boa parte das companhias operava com capacidades ociosas, já que não seria um racional adequado aumentar a produção com uma demanda extremamente enfraquecida.

As taxas nominais elevadas da Selic, por outro lado, favoreceram as aplicações em renda fixa, garantindo bons ganhos reais. As companhias que estavam com um bom nível de caixa, nesse momento tenderam a utilizá-lo como escudo, protegendo seus resultados de modo a poderem aguardar mais tranquilos por períodos melhores.

Já a utilização do caixa para um ataque seria justamente ter um bom nível de caixa e em momentos de crise se aproveitar de possíveis fragilidades da concorrência, alocando capital em momentos estratégicos. Além das aquisições o caixa dá muita tranquilidade pelo lado do endividamento e dos investimentos em novos negócios.

Enfim, ter um elevado nível de caixa além de outras métricas vem se mostrando um “belo zagueiro” dentro de uma empresa.

Bom, vamos para a parte prática. Utilizaremos como exemplo uma companhia que apresenta um balanço mais simples de ser entendido, essa empresa é a Grendene S.A.

Caixa

O caixa das companhias normalmente estão em partes destacadas no dentro dos releases de resultados das empresas, vamos ver aonde está o da Grendene:

No caso da empresa produtora de calçados, temos uma posição de caixa elevada e até voltando ao nosso raciocínio do caixa como “escudo”, talvez possamos enquadrá-la nesta situação.

A Demonstração de Fluxo de Caixa (DFC), é onde identificamos as entradas e saídas de dinheiro do caixa de uma companhia e os resultados desses fluxos. Ou seja, acompanhar o caminho do dinheiro dentro da empresa.

O Fluxo de Caixa apresentado nos balanços de resultados das empresas e são divididos em 3 pilares:

  • Fluxo de Caixa das Atividades Operacionais (FCO)
  • Fluxo de Caixa das Atividades de Investimento (FCI)
  • Fluxo de Caixa das Atividade de Financiamento (FCF)

1.

O Fluxo de Caixa das Atividades Operacionais é representado pelas receitas e gastos gerados da industrialização, comercialização ou prestação de serviços da empresa. Tais atividades estão ligadas a um capital bem líquido que circula pela empresa.

2.

Passando adiante temos as Atividades de Investimento que representam os gastos feitos pela empresa com o objetivo de gerar resultados e fluxos de caixa futuros. Se a empresa alocar o capital em maquinas novas, prédios, equipamentos e outros ativos, seu objetivo é gerar mais produção e receita no futuro, a fim de ganhar mais dinheiro e renovar o ciclo de investimento. Entre as principais contas de atividades de investimentos, podemos destacar:

O imobilizado e o intangível. 

Mas o que é “imobilizado “e “intangível”?

2.1

No Imobilizado são classificados os bens e direitos de natureza permanente que serão utilizados para a manutenção das atividades normais da empresa, que visa manter o seu funcionamento regular. A empresa não pretende vender os seus bens e direitos, ou seja, não há intenção de transformá-los em dinheiro. Caracterizam-se por se apresentarem na forma tangível (bens corpóreos).

São exemplos de Imobilizado:

  • Imóveis
  • Terrenos
  • Máquinas e equipamentos
  • Móveis e utensílios
  • Veículos
  • Ferramentas
  • Minas e jazidas

2.2

Já os Intangíveis são os bens que não podem ser tocados ou vistos, já que são incorpóreos (não tem corpo). Eles possuem valor econômico mas carecem de substância física (material).

São exemplos de intangível:

  • Marcas
  • Patentes
  • Direitos autorais
  • Software

2.3

Outra conta importante que consta no fluxo de caixa de investimentos são os Derivativos. Se refere aos pagamentos ou recebimentos de caixa por contratos futuros, a termo, de opção ou swap, desde que tais contratos não sejam mantidos para negociação imediata ou venda futura, ou os pagamentos forem classificados como atividades de financiamento.

3.

Por último o Fluxo de Caixa das Atividades de Financiamento, onde devem ser incluídos os empréstimos e financiamentos de curto prazo. As saídas correspondem à amortização destas dívidas e os valores pagos aos acionistas a título de dividendos, distribuição dos lucros.

As principais contas que fazem parte das atividades de financiamento são:

3.1

Aumento de Capital:
Se os sócios da companhia fizerem qualquer aporte adicional de capital, também chamado de aumento de capital, deverá ser contabilizado nessa conta no devido período. Essas informações também constam na Demonstração de Resultado de Exercício – DRE.
 
Já escrevemos um artigo que mostra o que é a “Subscrição de Ações” (também conhecida como Aumento de Capital) e suas aplicações.

Para entender mais sobre o assunto acesse o artigo na íntegra clicando no link a seguir:Artigo Subscrição de Ações.

3.2
Financiamentos de longo prazo
Todas as atividades de investimento e financiamento fazem parte da estratégia de cada companhia. Ela deve ter como planejamento estratégico o uso de dinheiro próprio ou de terceiros. Para conseguir dinheiro de terceiros, é preciso emitir uma dívida, como uma Debênture por exemplo. Quando a empresa termina de levantar os recursos de financiamento, deverão ser registrados em seus livros contábeis, sendo que no fluxo de caixa, deverá aparecer nas atividades de financiamento.
Vamos passar agora pela Demonstração de Fluxo de Caixa da Grendene para que possamos visualizar cada ponto que já destacamos.
Nesta primeira foto destacamos de cima para baixo o Lucro Líquido do período que vai descendo até chegarmos no Caixa líquido gerado pelas atividade operacionais conforme já trabalhamos a sua ideia acima.
Temos abaixo do lucro líquido os conceitos de Depreciação e Amortização. Vamos ver o que cada um significa…
A depreciação é a redução do valor dos bens tangíveis pelo desgaste ou perda de utilidade por uso, ação da natureza ou obsolescência. São exemplo de bens que sofrem depreciação:

 

  • Edifícios 
  • Máquinas e equipamentos
  • Móveis e utensílios 
  • Instalações
  • Veículos
  • Computadores

Já a amortização é a redução do valor aplicado na aquisição de ativos intangíveis, de duração limitada ou de utilização por prazo legal ou contratualmente limitado.

Alguns exemplos de ativos que sofrem amortização: 

  • Marcas e Patentes
  • Softwares e Websites
  • Direitos autorais 
  • Know How (no caso de transferência de propriedade intelectual, métodos produtivos, etc.)
  • Tecnologia

Entendidos esses primeiros pontos temos a Receita de juros de aplicações financeiras. Neste caso, esta linha entra como negativa ( ) nas Demonstrações dos fluxos de caixa. Note que no caso da Grendene este número teve evolução.

Por último nesta parte, destacamos as Contas a receber dos clientes, ou seja, o que a companhia muitas vezes vendeu a prazo e ainda irá fazer jus aos recebimentos e no final o Caixa líquido gerado pelas atividades operacionais.

Nesta segunda parte, temos o Fluxo de caixa das atividades de investimento e o Fluxo de caixa das atividades de financiamento. Destacamos na figura as atividades de investimento em Imobilizado e Intangível que já trabalhamos acima e na sequência finalmente o Caixa líquido consumido pelas atividades de investimentos.

Na última parte do nosso Demonstrativo do Fluxo de Caixa temos o Fluxo de caixa das atividades de financiamento, contemplando entre os outros pontos o pagamento de dividendos e os juros sobre capital próprio. Lembrem-se que estes são saídas, por isso representados com o parênteses.

Para finalizamos nossa análise tem o item denominado Redução no caixa e equivalentes de caixa que é o valor que foi adicionado ou subtraído do caixa da companhia, ou seja, o Fluxo de Caixa Total.

O fluxo de caixa total corresponde a movimentação de caixa com as atividades operacionais, investimentos e financiamentos. Se somarmos o total das atividades operacionais, o total das atividades e investimentos e o total das atividades de financiamentos, chegamos no fluxo de caixa total.

É ele quem vai dizer se, no período analisado, houve entrada ou saída de dinheiro na companhia. É muito importante analisar períodos passados, para saber se a entrada ou saída de caixa tem sido frequente ou se é apenas momentâneo.

Se a empresa tem dificuldades em gerar caixa, é muito comum que a tendência do volume de investimento diminua, a fim de não comprometer mais o caixa. Aliás, o pior que pode acontecer para uma companhia é a falta de caixa, pois dessa forma ela não consegue pagar as contas, os salários dos funcionários, não tem recursos para reinvestir na empresa e acaba tendo que fechar as portas.

Bom, ficamos por aqui e se você ainda está começando no mundo dos investimentos e quer saber um pouco mais sobre como montar uma carteira diversificada mesclando produtos de Renda Fixa, Ações e Fundos Imobiliários, clique na foto e acesse o guia:

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7 Comentários


  1. Muito boa explicação Felipe. Vi que esta empresa em 2015 pagou muito mais dividendos aos acionistas do que em 2016. Em compensação, em 2016 pagou JSCP. Por que isso? Para quem investe nessa empresa, é preferível receber dividendos ou JSCP?

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  2. Obrigado amigo!

    Bom vamos lá,

    A diferença básica entre os Dividendos e os JSCP é que ao receber dividendos ele não é tributado, pois a empresa já o foi quando da apuração de seu lucro líquido.

    Já o JSCP é tratado como despesa no resultado da empresa, enquanto o dividendo não. Neste caso, o investidor terá que pagar o Imposto de Renda sobre o capital recebido (descontado na fonte quando do pagamento ao beneficiário).

    Essa questão fiscal é justamente o benefício da companhia, como esse pagamento é contabilizado como despesa da empresa, antes do lucro, ela não arca com os tributos repassando este ônus ao investidor.

    A opção entre dividendos e juros sobre capital próprio compete à assembléia geral, ao conselho de administração ou à diretoria da empresa.

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  3. Fala Felipe. MT didática tua explicação. Gostei bastante do artigo e passarem a olhar a dre de outra maneira! obrigado

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  4. Olá AHCHAVES,

    Primeiramente é uma honra tê-lo por aqui e agradeço por ter sido útil em seu aprendizado. Digo o mesmo para você, já que o acompanho por esse "mundão" de blogs e sites de investimentos.

    Apenas um adendo, neste Artigo trabalhamos a parte do Demonstrativo de Fluxo de Caixa (DFC) e não o DRE (Demonstrativo de Resultados do Exercício). Ambos são os mais importantes relatórios para gestão econômico-financeira de uma empresa, pois permitem a análise da saúde econômico-financeira da companhia por duas perspectivas diferentes e complementares: o regime de caixa e o regime de competência.

    De forma resumida, no regime de caixa, consideramos o registro dos documentos na data que foram pagos ou recebidos, como se fosse uma conta bancária. Este evento pode ser uma entrada (venda) ou uma saída (despesas e custos).

    Já no regime de competência, o registro do documento se dá na data que o evento aconteceu. A contabilidade define o regime de competência como sendo o registro do documento na data do fato gerador (ou seja, na data do documento, não importando quando vou pagar ou receber).

    Grande abraço amigo!

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  5. Adorei o post, mas ainda estou com certas dúvidas… Estva analisando uma empresa e seu FCI estava 3.350, isso quer dizer que gastou esse valor ou que lucrou? Não sei se ficou claro a pergunta kkk

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    1. Olá amigo(a)! que bom que gostou do Artigo, isso é muito importante para nós. Primeiramente, temos que diferenciar a Demonstração do Resultado do Exercício (DRE), onde são calculados Receita, Ebitda, Lucro Líquido, etc e a Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC), o que nos referimos aqui neste Artigo.

      Quando você fala em FCI (Fluxo de Caixa de Investimentos) não tem nada a ver com Lucro, são contabilizados em regimes diferentes. No FCI estão os gastos em imobilizado e intangível (como você pode ver no exemplo da Grendene). Veja se esta empresa que está analisando não é um case que necessita de grandes investimentos. Se quiser também pode colocar aqui a companhia que podemos aprender juntos.

      Abraços e obrigado pelo comentário!

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  6. Parabéns pelo artigo, excelente e muito esclarecedor, só uma dúvida no FCO na parte de receita de juros e aplicações financeiras porque o numero está em negativo, a contrapartida dele vai no FCI? se puder detalhar melhor essa parte ficou um pouco confuso para mim. obrigado

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